terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Cada dia uma pintura

Se tem uma coisa que me dá prazer na vida é saber que sempre está chegando alguma encomenda pelo correio para mim.
Tintas, materiais, revistas e livros, ah os livros da Amazon...
Pois bem recebi semana passada o Daily Painting da Carol Marine, que é uma preciosidade.
Daily Painting
Carol, que trabalha em obras de pequeno formato, em quadrados de seis polegadas o que não dá nem 16 centímetros, defende que esta é a forma mais eficiente de você produzir arte - Pinte pequeno e sempre para se tornar um artista mais criativo, produtivo e de sucesso.
Rose Glow - OST - 6" x 6"
Ela diz que recebeu este conselho cedo em sua vida de artista, mas que não deu bola, continuando a trabalhar com formatos grandes e desanimadores
- e agora, o que é que eu faço com este fundo?
- puxa, mas já pintei 6 quadros este mê?
- será que vai dar tempo? até preparar tudo, vai estar na hora de ir embora...
Mas, depois de bastante tempo colocada em uma realidade onde só tinha chance de pintar enquanto o seu filho pequeno tirava suas sonecas, ela teve que se decidir, e resolveu que alguma coisa que levasse entre meia e uma hora e meia para fazer seria o suficiente. Além do que perder um quadro de 16 x 16cm não custa nada, né?
E nós todos sabemos que o que mais nos impede é o medo de errar...
Se errar, limpa tudo (ela pinta a óleo) e começa de novo. Ou simplesmente joga fora e faz outro.
Os seus motivos são majoritariamente naturezas mortas, escapando algumas vezes para a paisagem e para o plein air.
Na natureza morta de pequenas proporções (tem que ser pequeno para caber num quadro mínimo), o arranjo é facil, os materias são fáceis de arranjar, a luz é fácil, e o canto onde o arranjo vai ficar também é fácil de montar.
Mas vejamos por ela mesma o que ela defende como argumentos para pintar pequeno:
Intimidating - OST  6 x 6" - 2011
"Eu tenho dividido a minha história pessoal - e eu sou a prova viva que pintar diariamente pode mudar a sua vida e careira. Mas se você não está convencido disto, deixe-se lhe mostrar os prós e os cons de mudar para a atitude de pintar diariamente:
  • Cabe no seu cronograma apertado. Nós temos vidas ocupadas. Nos trabalhamos e temos vida em família, e isto pode nos levar a um eterno processo de procrastinação no que se refere à pintura. Mas se você consegue encontra um canto (e pode ser um pequeno espaço já que o sistema de daily painting não tem porque mais área), o seu material pode estar sempre pronto, e você entrar no hábito de produzir uma pequena pintura todos os dias que não levaria uma hora para ser completada vai lhe parecer muito menos exaustiva.
  • Você se torna mais disposto a se arriscar. Quando você só está trabalhando com trabalhos de grandes proporções, você sente muitas vezes uma compulsão para terminar as coisas logo, para que a obra vá logo para uma galeria ou exibição. COm esta mentalidade, pode se tornar difícil tentar qualquer tipo de real experimento. Mas, com pequenas pinturas que tomaram em torno de uma hora você pode tentar várias coisas todos os dias.
  • Você está menos emocionalmente envolvido.  Quando você gasta dias ou semanas em uma pintura, é um sofrimento quando o resultado é desalentador. Quando você pinta diariamente e fazendo em sua maior parte pequenos trabalhos, perde rapidamente aquele senso de preciosidade que é a perdição dos artistas. Fica muito mais fácil dizer "Esta aqui não funcionou. Quem sabe a próxima..
  • O processo facilita um crescimento rápido. Um dia você pinta e tem uma idéia de como poderia ter melhorado um pouco aquela pintura. No dia seguinte você tenta a nova idèia, mas resolve fazer um novo ajustamento. E no dia seguinte de novo e assim em diante. Quando você só pinta uma vez por semana, será incomum se lembrar como se deram as coisas uma semana atrás, inda mais quais foram os seus pequenos erros e acertos.
  • Você sente menos medo. Quando sabe que estará trabalhando durante algum tempo em uma obra de grandes proporções, existe costumeiramente uma forte pressão para fazer aquela peça uma obra de mestre, e o medo correlato de que ela não venha a ser, que é o que acontece com o comum dos mortais. Com pequenas e rápidas telas existe muito menos pressão, o que termina por aliviar um bocado do medo que está em volta.
  • Curte mais o processo. Quando sabe que estará trabalhando em um monte de pequenas pinturas, é muito mais fácil se sentir confortável no processo de criação e curtir o próprio processo de pintura (pintar por pintar). Você descobre que nem todas as pinturas funcionam mas que você está num processo de crescimento, e é este desafio pela melhora que torna o processo de pintar tão excitante.
  • Ganha confiança. Conforme você melhora, e mais e mais pinturas funcionam, você desenvolve maior segurança em sua habilidade. Você pode até ser tentado a extranhas idéias como dar aulas ou viajar para ministrar workshops (quem sabe, né?)
  • É menos tedioso.  Com uma pintura de grandes proporções existem comumente áreas que você se vê obrigado a preencher no background, o que lhe leva a perguntar qual a necessidade de pintar aquela coisa toda.
  • Existe mais estrutura.  Se você pretende, e começa a pintar uma obra por dia, isto lhe obriga a adotar uma rotina em sua vida, onde provavelmente antes não havia. Quando a gente tem todo o tempo do mundo e nenhuma expectativa, isto nos leva a procrastinar, isto não soa familiar?
  • Isto ajuda em seus trabalhos maiores.  Melhor de tudo, quando você decidir por realizar obras de maior porte você vai levar tudo que aprendeu com a rotina de "Um dia, uma pintura".
O texto acima foi traduzido livremente, das páginas 8 e 10 do livro da Carol Marine.
Quem quiser conhecer melhor o seu trabalho, visite http://carolmarine.blogspot.com.br/
Quem quiser adquirir o livro compre aqui (amazon.com)
Pink Flower, 34 x 40 inches, OST, 2004

Inté, amigos!

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A história dos pigmentos - Parte II

Para ver a primeira parte da postagem, clique aqui.

Os Romanos

A maior parte da cultura romana foi herdada dos gregos, o mesmo acontecendo com os pigmentos, herdados não só dos gregos, mas dos egípcios também.
O vermillion, por exemplo, vermelho desenvolvido pelos chineses e utilizados por todas as civilizações a seguir, foi muito encontrado nos afrescos das ruínas de Pompéia.
Outra cor muito utilizada pelos romanos era o Violeta de Tirian, retirado de molúsculos, e de um valor impressionante, dada a dificuldade de obtê-lo. Este vsioleta era obtido de um pequeno cisto incrustado dentro de molúsculos.
Bolinus Brandaris, o molusco utilizado para a obtenção
do Violeta de Tirian

Imensas quantidades de molúsculo eram necessárias para se obter um mínimo de pigmento. Em 1908, P.Friedlander coletou somente 1,4 gramas de pigmento puro com o sacrifício de 12.000 molúsculos. Até a modernidade ainda se encontra enormes pilhas destas conchas nos locais onde na era romana se extraia tão nobre pigmento.

A Renascença

Pouco aconteceu após os romanos, até a Renascença. O renascimento das artes, no entanto, fez com que novos desenvolvimentos acontececem com os pigmentos, a partir do século XIV.
Os italianos conseguiram obter mais tons terra, através da queima do siena e do sombra natural. Desenvolveram, melhorando processos egípcios de confeção de tintas a base de laca, o amarelo nápole, e adotaram o uso do azul ultramarinho, a partir do lapi lazuli (veja o post)

Séc.XVIII

Com o advento da química moderna, o mundo começou a ver o início de novos pigmentos.
Ainda em 1704 o industrial alemão Diesbach estava fazendo um tipo de vermelho laca, que requeria o uso de cloreto de potássio como um composto alcalino. O seu suprimento acabou e ele terminou se utilizando de resíduos, contaminados por óleo animal. Em vêz do vermelho, ele fez violeta, e depois azul. Foi a vez do Azul da Prússia, que é utilizado até hoje, aparecer no cenário. Foi esta a primeira produção de um pigmento sintetizado quimicamente.

Séc.XIX

O Azul Cobalto foi descoberto em 1802 por um químico chamado Thénard. Possuia uma explêndida transparência, sendo um azul de meio tom de grande permanência. Este pigmento é amado pelos artistas, por suas características, como força moderada de tingimento, secagem rápida e características apropriadas para a aquarela.
O Azul Cerúleo apareceu em 1805, sendo também um pigmento do grupo do cobalto. Foi descoberto por Andreas Hopfner, sendo baseado em estanato de cobalto.
Em 1828, J.B.Guimet descobriu um processo economicamente viável para a produção de azul ultramarinho sintético, ganhando um prêmio pelo feito (veja o post aqui).
Assim, no século XIX foram descobertos sucessivamente, o amarelo de cromo, alizarim crimson, verde cobalto, violeta cobalto, branco de zinco opaco e o amarelo de cádmio. O vermelho de cádmio só se tornou disponível no início do séc. XX.

Séc.XX

As descobertas do século XX tornaram possível a criação de uma paleta quase que infinita para os artistas, inclusive com alternativas para os pigmentos considerados mais perigosos, como de chumbo, cádmio e o cromo.
Assim a família de amarelos do tipo Hansa (alguns chamam de Aza), a família de pigmentos dos quinacridones e, essencial, o processo industrial que permitiu o uso em escala do branco de titânio, o mais permanente e opaco de todos eles.
Conclusão
Talvez não faça diferença à primeira vista para quem se utiliza destes pigmentos em sua paleta, mas conhecer a sua origem e as suas possibilidades é sempre importante.
Inté!
p.s. Veja na Parte I as referências que utilizem neste post.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A história dos pigmentos - Parte I

Imagem rupestre exposta na Universidade de York - Inglaterra

Antiguidade

A datação das pinturas encontradas em cavernas (chamadas de Rupestres) levou aos pigmentos que já eram utilizados há mais de 15 mil anos atrás.
Os principais eram obtidos a partir de jazidas de óxido de ferro. Eram basicamente o amarelo ocre (a limonita), e o vermelho ocre (hematita). Outros pigmentos utilizados eram obtidos a partir do giz branco, constituído essencialmente por carbonato de cálcio e o preto, que era a fuligem obtida a partir da queima da gordura da caça,
Hoje em dia ainda temos a nossa disposição estas cores, quando compramos o amarelo ocre, o terra de siena queimada (que é o vermelho óxido) e, apelando para tintas importadas, O Lamp Black, por exemplo, que é composta a partir de elementos semelhantes a fuligem de que falamos antes. No Brasil, podemos obter o Preto Marfim, obtido através da queima de ossos animais.
Quanto ao branco, com o advento da renascença, o uso do carbonato de cálcio como pigmento foi abandonado.

Contribuição dos Egípcios

Há evidências de que os egípcios, em torno de 4000 AC, já preparavam pigmentos. As cores terrosas (os óxidos) eram lavadas, o que aumentava a sua força e pureza, sendo que novos pigmentos eram descobertos a partir dos minerais.
O mais famoso deles foi o Azul do Egito, produzido a partir de 3000 AC. A sua matéria prima, semelhante a vidro de cor azul,  era obtido a partir de sua fusão, sob calor, com cobre e a seguir a sua maceração até se tornar num pó suscetível de ser utilizado como pigmento.

Os Chineses

Na antiguidade, a civilização chinesa estava muito a frente da ocidental, no que se refere a tecnologias, invenções, como a pólvora e o papel. Isto também não poderia deixar de ocorrer com os pigmentos. E assim aconteceu com o Vermilion, que os romanos só vieram a descobrir 2 milênios depois. Se por conta própria, ou surrupiando a ideia dos chineses, disto eu não sei.
Pigmento Vermilion - PR106 - Fonte Wikipedia
O Vermilion era obtido através da mistura, sob calor, de mercúrio com enxofre, produzindo um pigmento extremamente forte e opaco.

Os Gregos

Os alquimistas gregos foram responsáveis pela descoberta do branco de chumbo, considerado até hoje como o mais nobre de todos eles (Lucian Freud o utilizava). É proibido hoje em dia por suas propriedades venenosas. Dizem que os artistas chegavam ao final da vida carregando alguns quilos a mais, graças ao chumbo que se depositava em seu organismo, através da inalação ou de absorção da substância através da pele, o que é uma mentira minha, naturalmente. Mas o branco de chumbo é uma substância venenosa relevante que, se absorvida pela pele, pelas mucosas ou inalada, provoca danos irreparáveis.
O seu processo de preparação levava alguns meses e consistia basicamente no armazenamento de barras de chumbo em locais confinados, com vinagre e esterco animal, levando à corrosão do chumbo e ao aparecimento de um depósito que era, ao final das contas, o pigmento desejado.
Por incrível que pareça, este processo, com alguns aperfeiçoamentos permaneceu o mesmo até os anos 60, e produz sem dúvida um dos mais finos pigmentos da paleta do pintor.
Tambor para corrosão do chumbo, utilizado no séc XIX
Mas, como disse antes, apesar de disponível em alguns fabricantes, o branco de chumbo foi largamente substituido pelo branco de titâneo. Alguns fabricantes vendem uma imitação de branco de chumbo que não passa da mistura do branco de titâneo com o branco de zinco.
Logo, logo, postarei a parte II da História dos Pigmentos.

Para elaborar esta postagem, consultei principalmente o livro Artist's Color Manual de Simon Jennings. Fiz consultas também ao conspícuo The Artist Handbook do Ralph Mayer, além de algumas navegadas na internet, de onde tirei as ilustrações. 

Para ver a segunda e última parte do post, clique aqui.